A história de hoje do nosso #UmGatoMeResgatou foi enviada pela Bruna, e é muito especial e emocionante.
Fellini, fica aqui registrada essa linda homenagem da sua mãe, que tanto te ama.
fellini

asSempre gostei da expressão “Não tenho nada a perder”. Sempre usei essa válvula de escape para me mostrar ao mundo como forte e egocêntrica, sem perceber que ela berrava insegurança e infantilidade.
O meu primeiro passo para o amadurecimento foi dado em setembro do ano passado, quando me ajoelhei no chão de um pet shop para um rabinho torto escalar até o meu ombro. Nunca mais usei a frase “Não tenho nada a perder”.
E ontem, eu perdi tudo. Ontem eu senti tristeza, senti dor, senti culpa, senti toda a fragilidade do mundo. No dia anterior eu estava acabada pelo meu desempenho no vestibular da Ufrgs, algo tão estúpido. Perdi você que me amou sem diploma, sem roupas caras, sem casa, sem perfume, sem nada: você que me amou simplesmente por eu ser e feliz eu fui.
Você me ensinou que se pode dormir um pouco mais e deixar para depois, você me ensinou que caixas de papelão podem ser encantadoras, que sempre se descobre algo divertido para fazer aos domingos, que roupas e sofás de nada valem – só para aquecer e arranhar. Você me ensinou que dá para ser feliz sendo torto, que dá para subir um pouco mais e perder o medo do céu.
Você me ensinou a admirar a paisagem por um bom tempo, me ensinou a vê-la diferente. Você me ensinou a ser menos nojenta, mas também me ensinou que tudo pode ser resolvido com um banho longo e uma caixinha de areia limpa. Fellini, você me ensinou a ser mais humana e mais feliz, te amarei pra sempre, sentirei tua falta diariamente.
Com você eu aprendi a estar em paz, aprendi a voltar para casa, para alguém. Ter você aninhado comigo era o sentimento mais seguro do mundo, como se tudo tivesse um porque, como se o mundo fosse um lugar bom.
Você me lambeu, mordeu, pulou, arranhou, amou e cuidou como ninguém. Viver longe de você seria a coisa mais difícil do mundo, mas viver em um mundo onde você não existe é inaceitável e demasiadamente injusto.
Conforta-me saber que aproveitou teus meses de vida muito bem, viveu com liberdade e amor e deixou dito: “mãe, você não precisa muito mais do que isso”.
Conforta-me saber que você viajou bastante e que eu escolhi para ti o melhor pai que eu poderia – aquele homem maravilhoso que te cuidou, trocou teus curativos e teve tanta paciência contigo.
Ontem à noite você não miou na porta do meu quarto para dizer que já estava na hora da gente dormir. Hoje de manhã você não me acordou para gente tomar café, não entrou no meu guarda roupa nem se aninhou nas cobertas enquanto eu me arrumava, não foi comigo até a esquina de casa pulando nos meus pés como quem diz: “não vai”.
Ao meio-dia você não veio se espreguiçando quando eu abri a porta, nem deu umas lambidinhas com aquele olhar de “tem whiskas sachê?”. Hoje à noite quando eu chegar em casa, você não vai deitar sobre o motor do carro para se aquecer, nem vai subir na pia da cozinha para me pedir água. Saber que você não vai ter uma vida toda pela frente me mata.
Se eu pudesse, eu trocaria qualquer coisa no mundo – sem clichês, qualquer coisa para ter largado o celular, o livro, o notebook e ter mais minutos contigo. Qualquer coisa para estar em casa no domingo quando você foi miar de saudade no meu quarto, qualquer coisa para estar lá e erguer a coberta para você se aninhar do meu lado.
Trocaria aquele vestibular idiota por mais um final de semana de pelos, mordidas, lambidas, olhares recíprocos de “eu te amo”, “eu te entendo”, “eu estou contigo”. Daria qualquer coisa para assistir teu longo banho de orelha a orelha. Se eu pudesse, eu daria.
Mas não posso te dar nada, nada além da minha palavra de que irei tentar (com vontade) ser mais feliz daqui pra frente e viver como se não existisse amanhã. Tentarei ser feliz com o calor, com as borboletas, com o sol, com as bolinhas de papel e com as gotas de água.
Prometo que terá orgulho de ser meu filho, pois não irei me cobrar mais do que devo e irei acreditar mais em mim, como você acreditava. Sentirei saudades, todos os dias, sentirei saudades do teu andar engraçado sobre o mundo e lembrarei dele para dar o meu.
Fellini, obrigado por mudar a minha vida, obrigado por me fazer entender que a vida; ah, a vida, nem sequer existe se não tivermos algo a perder.

Bruna Rother

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Fotos e texto: Bruna Rother

Envie sua história de resgate para fuiresgatado@catclub.com.br.

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  • Fabiane

    Que linda a sua historia, me emocionei… Não sei o que faria sem minha Nina iluminando os meus dias.

  • Mayumi

    Me identifiquei com o depoimento porque perdi uma filha gatinha assim, do nada. Eu estava esperando que ela viesse com minha mãe para morar em outro estado, até tinha vendido as coisas pra apressar a vinda, e ela faleceu uma semana antes da viagem. Minha mãe tinha acabado de voltar de uma festa e dormiu, e pela manhã ela não viu a Mei, que era o despertador felino dela. Infelizmente, a sensação que fica é exatamente como é descrito no depoimento “você trocaria tudo por mais um pouco de tempo ao lado do seu gatinho”. Infelizmente, Mei caiu da janela do 15º andar do prédio, e a única coisa que nos reconfortou é que o veterinário assegurou que ela não sentiu dor, e partiu rapidamente. Desde então, eu e minha mãe nunca mais procuramos ter animais em casa por medo de sentir essa dor de novo. Foi tão devastador perder minha gatinha que nem consegui comemorar no dia seguinte o meu resultado positivo de gravidez. Hoje, cinco meses depois da morte da Mei, descobri que estou esperando uma menina e fiquei ainda mais triste. Espero que Deus traga para o meu coração um pouco de conforto para esta perda, pois a Mei foi meu primeiro anjinho que adotei da rua e agora descansa no céu.